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Entre pílulas, cansaço e relações descartáveis

  • Foto do escritor: Iamary Nascimento
    Iamary Nascimento
  • 22 de jan.
  • 2 min de leitura

Frasco com pílulas
Frasco com pílulas

Remédio para dormir, remédio para acordar, vitamina para ter mais energia, estabilizadores de humor, medicamentos para "baixar" a ansiedade ou dar um “up” em quem está deprimido, hormônios para ficar no shape, canetas emagrecedoras como promessa de solução para todos os problemas do corpo e da saúde. E, no meio disso tudo, uma sociedade adoecida.


Não sou contra medicamentos, de forma alguma, desde que sejam realmente necessários. O problema é que vivemos na lógica do imediatismo. Tudo precisa ser rápido. Exercício físico, alimentação equilibrada e terapia demoram. Exigem constância. Para quê esperar se posso tomar algo e “resolver”? A ilusão é de que está tudo solucionado.


Também não há tempo para cultivar relações. Frustrou? Vai embora. Para quê me comprometer se posso ter inúmeras opções? Zygmunt Bauman, em Amor Líquido, descreve bem esse cenário: relações instáveis, frágeis, voláteis e facilmente descartáveis.


Mas talvez não seja só o amor que esteja líquido. Parece que tudo está se liquefazendo, inclusive a saúde. Já reparou como quase ninguém está bem? Dados da Organização Mundial da Saúde - OMS - indicam que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com algum transtorno mental. No Brasil, cerca de 10% da população adulta já recebeu diagnóstico de depressão, e quase metade faz uso de antidepressivos.


E a terapia? Uma pesquisa do Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel mostrou que apenas cerca de 5% dos brasileiros fazem psicoterapia, enquanto aproximadamente 1 em cada 6 utiliza medicamentos para questões de saúde mental. A terapia ainda não é acessível para muitos. No SUS, a demanda é alta e o número de profissionais é insuficiente. Outros até poderiam pagar, mas desistem cedo: dói, demora, exige envolvimento. Melhor empurrar para depois, para o fundo da gaveta.


O que vemos são sintomas se multiplicando: ansiedade intensa, pânico, transtornos alimentares, isolamento, depressão, impaciência. Soma-se a isso a solidão, já considerada uma epidemia pela OMS, a ponto de o Reino Unido criar, em 2018, um Ministério da Solidão.


E o trabalho? Relações adoecidas por todos os lados: ambientes tóxicos, lideranças despreparadas, cobranças desumanas, empresas focadas apenas no lucro. Casos de burnout explodem. O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking mundial, com cerca de 30% dos trabalhadores afetados.


Vivemos também presos à comparação constante. Olha-se tanto para a vida do outro que se perde de vista a própria história. As conquistas são invisibilizadas, e o cotidiano vira um ciclo de insatisfação e reclamação.


Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja eliminar o sofrimento, mas aprender a sustentá-lo com responsabilidade, presença e cuidado. Nem tudo se resolve com rapidez, e nem tudo pode ou deve ser silenciado por uma substância. Saúde mental não se constrói no imediatismo, mas na disposição de olhar para si, de suportar o processo e de investir em vínculos, limites e sentido. Enquanto buscarmos apenas soluções rápidas para dores profundas, seguiremos adoecendo, individual e coletivamente.


 

 

 

 

 
 
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